1 de jul de 2012

Devaneios dos Quinze Minutos

O balanço da rede somado ao calor do sol poente entorpece. A criança dorme e eu deveria espelhar seu comportamento, entretanto, meus olhos, mesmo cansados, recusam-se a fechar e pedem vigorosamente que continue a apreciar a mudança de cores do céu.
A primeira coisa que encontro é uma pipa azul, aparentemente desgovernada, girando como louca no céu em brisa. Tento imaginar como seria quem a comanda – se criança, jovem ou menos jovem, se feliz ou triste, se está só ou acompanhada... Esses pensamentos logo são cortados por um avião que passa frente à pipa, seguindo na direção noroeste. O que será que tem por lá? Para onde ele vai ou de onde saiu? Quanto tempo está no ar e quanto tempo ficará? Por que não estou nele? As perguntas seguem como uma fala rápida em minha mente e desaparecem assim como o avião da minha vista. Na verdade, ainda não entendi como o avião sumiu, com tantas perguntas vagando aqui creio que me esqueci de segui-lo com os olhos atentamente – ou talvez tenha de fato seguido, mas esquecido como ele sumiu de minha frente... Pouco depois desse raciocínio mal formulado, rouba minha atenção outro avião, desta vez rumando para o leste. As mesmas perguntas voltam às ideias, mas com uma pergunta nova: por quanto tempo saberei onde ele está? E mal acabada a pergunta, lá se vai o avião e com ele outros questionamentos que desisti de pensar...
Quando ainda estava nos pensamentos sobre o avião que havia ido, rompe minha visão, como que caído do telhado, um bando de pássaros escuros (seriam escuros mesmo ou somente sombras contra-luz?), dançando feliz rumo ao norte. Para o norte... Por que sempre para o norte? Ou será que só presto atenção em pássaros quando estão indo para o norte, pois não me recordo de ter presenciado migrações para o sul... Enquanto as dúvidas tentam se apoderar de mim, dois pombos que voavam juntos se separam e cada qual pousa na ponta do telhado – um no do vizinho da esquerda e o outro no da direita. Parecem descansar... Ambos caminham vagarosamente até o topo dos telhados, se entreolham, olham para o norte e alçam vôo juntos. O norte... Novamente o norte... Deve haver algum evento para as aves hoje. Não me surpreenderia se até os frangos rumassem aos passos para o norte, mas sei que não participaram, pois hoje é domingo e é dia de frango assado... Ou talvez participariam, seguiriam seus amigos pássaros e fugiriam para o norte, não sei...
Devaneios sobre o destino dos pássaros e aviões à parte, uma coisa ainda me intrigava: a pipa azul ainda estava no céu. O sol de amarelo foi para alaranjado e já havia levado consigo o calor para trás do prédio à minha esquerda, o céu já estava rosado e a pipa azul ainda pairava desgovernada no céu. Seria uma criança tentando fugir do tédio dominical? Será que era isto que os pássaros, frangos e aviões tentavam fazer também, fugir do tédio dominical? Se eu resolvi escrever o que vi em quinze minutos para fugir do tédio dominical, o que impediria as outras criaturas de se arranjarem com suas naturezas ou invenções para fugirem também?
O sol já se foi. E com ele meus quinze minutos, mas ainda é cedo para dizer boa noite. Então... Adeus!

29 de jun de 2012

Sonhos

A procrastinação de sentimentos é nociva à saúde. Hoje, os dedos parafraseiam a tristeza que corrói os pensamentos que ela tenta ocultar com esporádicas alegrias.

11 de jan de 2012

Ao Mar


Quatro anos de saudade ignorada em meu peito
Quase me esqueci da tua voz
E o quão divino era silenciar minha alma para te ouvir e te perceber brincar com meus olhos, que se perdem em teu infinito ao te contemplar

Quatro anos sem teu abraço forte, às vezes brusco
Como uma bronca pela ausência demorada
Quatro anos sem teu perfume ardendo em minhas narinas
Incômodo que gosto de sentir e você de provocar

E a distância era tão pequena... E a ausência tão injusta...

E depois de tanto tempo, assim como da primeira vez, te encontro calmo, sereno, tão perto quanto distante, tão quente e gentil neste dia tão feio e cinza, me esperando e convidando para entrar.

E como das outras vezes, permito que minhas lágrimas se misturem às tuas na hora de partir.

Ah, que saudade que eu estava do MAR!!!

(ao mar de Boracéia - Bertioga/SP)

15 de jul de 2011

Nobres Missivas - Carta Segunda

Minha Princesa...
Enfrentei enormes dificuldades e desafios durante essa minha trajetória.
Enfrentei bandidos, bestas selvagens do campo, ogros e toda a espécie de animais e bestialidades encantadas em uma de minhas batalha eu e meu cavalo branco fomos feridos por um dragão de 28 cabeças! Logo saquei de minha espada e cortei cabeça por cabeça na mais absoluta ganância, para que eu mesmo, através de meu poder e autoridade, pudesse recuperar o tempo perdido...
E cortei cabeças a direitas...
E cabeças a esquerda...
E cabeças ao meio...
E ao total foram 28 cabeças ao chão. Isso, 28! Como se fosse uma cabeça para cada ano de minha vida em que me encontro execrado de sua nobre presença, oh minha eterna rainha!
Continuarei a lutar e em breve estarei a alisar seu belos cachos por entre meus dedos e a te olhar na sua mais encantadora beleza. Sim, até o fundo dos seus olhos.
De seu Príncipe, para A Princesa.

Nobres Missivas - Carta Primeira

Sr. Príncipe Encantado...
Escrevo para informá-lo que estou ligeiramente exausta de aguardar a sua chegada. Espero realmente que tenha acontecido algo de importante durante seu trajeto até a minha masmorra, algo que justifique plausivelmente seu atraso.
Por gentileza, retorne esta mensagem informando a data aproximada de sua chegada para que eu possa desfrutar meu sono em paz e na segurança de que terei meu acordar mais alegre com a sua presença.
Abraços afetuosos...

Sua Princesa.

27 de fev de 2011

Amante

Originaria em seus pés,
Rosas virgens,
Da cor de seus delírios,
Simplesmente para tu esmagar.

Em ensejos de belezas,
Colheria o perfume,
Das pétalas abatidas,
E dar-te-ia o aroma mais divino.

Semearia a terra,
Com as suas mais intimas ilusões,
Pra que as mesmas nascessem,
Unicamente para o seu deleite.

Furtaria os ventos,
E quando taciturna tua face chorasse,
O ar acariciaria suas lágrimas,   
E a brisa a arrastaria além de ti.

Trucidaria a manhã fria,
Pra tu ver apenas as auroras,
Os fins de tarde,
E as noites cálidas,

Nos invernos – seria tua pele,
Nas primaveras – tua luz,
Nos outonos – a doce brisa,
No verão – uma água fria.

Em seus dedos correriam,
Os caminhos de meus rastros,
E em teus lábios,
As únicas palavras a ouvir,

E em tua Morte,
Minh’alma iria contigo,
Embora meu corpo permanecesse a andar,
Aguardando teu chamado,

Se ouvisse sua voz,
Pedindo-me para partir,
O suicídio seria meu último cúmplice,
E ao teu lado estaria... De contínuo...

E se fosse tua veleidade,
Eu renasceria – meramente pra morrer outra vez... 


Safira

15 de fev de 2011