27 de fev de 2011

Amante

Originaria em seus pés,
Rosas virgens,
Da cor de seus delírios,
Simplesmente para tu esmagar.

Em ensejos de belezas,
Colheria o perfume,
Das pétalas abatidas,
E dar-te-ia o aroma mais divino.

Semearia a terra,
Com as suas mais intimas ilusões,
Pra que as mesmas nascessem,
Unicamente para o seu deleite.

Furtaria os ventos,
E quando taciturna tua face chorasse,
O ar acariciaria suas lágrimas,   
E a brisa a arrastaria além de ti.

Trucidaria a manhã fria,
Pra tu ver apenas as auroras,
Os fins de tarde,
E as noites cálidas,

Nos invernos – seria tua pele,
Nas primaveras – tua luz,
Nos outonos – a doce brisa,
No verão – uma água fria.

Em seus dedos correriam,
Os caminhos de meus rastros,
E em teus lábios,
As únicas palavras a ouvir,

E em tua Morte,
Minh’alma iria contigo,
Embora meu corpo permanecesse a andar,
Aguardando teu chamado,

Se ouvisse sua voz,
Pedindo-me para partir,
O suicídio seria meu último cúmplice,
E ao teu lado estaria... De contínuo...

E se fosse tua veleidade,
Eu renasceria – meramente pra morrer outra vez... 


Safira

15 de fev de 2011

9 de fev de 2011

Um engano

"...cília", disse a voz metálica dos altos falantes. Entretida com minha mochila, numa luta covarde entre o zíper e o pacote de presente que nela havia, flagrei-me estática contemplando no vidro o reflexo de um anúncio de cigarro que estava fixado na estação.
Assombrou-me o aspecto real da imagem escolhida e as pessoas que emolduravam o reflexo no vidro somente aumentava a angústia que eu sentia. Era um rosto antigo, macilento, de perfil. Cabelos faltavam na cabeça daquele homem, que tristemente parecia observar os transeuntes do local. Ele ali, sozinho, a frente do maço de cigarro anunciando seu próprio fim. Se não fosse a estranha cor em seu rosto, poderia não tê-lo notado, uma vez que o resto de seu corpo, seja pelas vestes ou pela cor natural, era de um branco encardido esquecido.
Fecharam-se as portas. Despedi-me daqueles olhos lacrimejantes que nunca me viram e que tanto me fitaram. Lacrimejantes?
Mal o coletivo iniciou sua partida e o sujeito pôs-se a espirrar. Senti-me enganada pela comoção indevidamente sentida. Eu deveria prestar mais atenção nas minhas coisas...

3 de fev de 2011




Os restos de suas sombras, meus caminhos luminosos...

Safira

FOGO

Morena dos lábios vermelhos,
Tem a brasa na ponta dos dedos - e sabe disso...
O vento alastra teu cheiro como fumaça perfumada, entorpece e me tira o ar...
Fumaça que oculta minha floresta de pesares, me distrai...
Ah, morena... Menina-faísca de sonho ambulante, de olhar ardente
Fogo latente andarilho perturbado....
Queime minha mente!
Incendeie minha alma cansada de tanto esperar um motivo pra descongelar meu coração...

1 de fev de 2011

A Bailarina

Seu plasma, feito de melodias esquecidas. As hemácias, notas musicais cortantes.
A ausência de cor em seu semblante é só o reflexo da atual imobilidade. Falta a alegria da hemoglobina, que se recusa a existir pela morte dos movimentos.
A morte dos movimentos?
Após meses de lágrimas copiosas, cansada de lamentar o próprio infortúnio, decidiu que não aceitaria a inconveniência imposta pelo destino. Seu amor a dança era maior que a própria vida, maior que os olhos do mundo e ultrapassava qualquer tipo de NÃO que pudesse existir.
Trancou-se no quarto e recusou todas as visitas. Abraçou sua companheira cromada. Amarrou a fita vermelha no cabelo e desenhou no espelho seu novo rosto, sua nova forma. Estudou seu corpo como nunca antes fizera.
Arranhou as pernas como ato de protesto. Berrou as dores da negação. Cantou as glórias que um dia teve. Escreveu uma promessa. Ficou silente. Gemeu.
Hesitou.
Inspirou fundo.
Jurou não fugir de si - Leu a promessa.
Meneou a cabeça, considerando possibilidades. Notou que seu coração acelerava... Optou por ignorá-lo.
Presenteou seu rosto com a mais linda pintura. Quis se convencer de que era capaz.
Rogou aos deuses, demônios, santos, duendes, gnomos, seres de outras constelações para que a segurassem caso algo saísse errado (como se houvesse algo pior do que não tentar).
Suspirou.
Tateou seu corpo e a amiga de metal. Uma vez reconhecida, começou a girar.
Vez e outra um urro agônico.
Zonza, foi ao chão.
Levantou... E recomeçou.
Com quedas involuntárias e voluntarias, giros descompassados e saltos imaginários ela dançava ao som de sua tristeza. A voz rouca emitia algo que, ao longe, lembraria o Lago dos Cisnes ou uma música qualquer. Isso não importava pra ela.
Com a porta trancada lá permaneceu.
Dias e dias passaram. Abria uma fresta para receber alimentos que fingia ingerir e que acumulava no canto contrário do quarto. Cada vez mais fraca e convencida, a bailarina se alimentava da dança que não mais tinha, dos passos que não mais dava, dos saltos que não mais sabia.
Um dia ela não abriu a porta. Não se ouviu mais lamentos. Nem os estrondos da cadeira de rodas.
Assim feneceu a bailarina - permitindo que a tristeza corroesse seu sangue desnutrido. E eu, simples caixa de música, nada pude fazer para impedir - somente assistir ao fim elegante de minha dona silente.
Adeus, minha bailarina.

SENHORA DO CAIS

Bailo lascivamente a brisa da alegria não distante, encurralando os desejos na beira do cais
Engano as mãos, fermento as ideias
A brisa somente incita meus intentos
O sorriso libertino e convidativo invoca meu ato.

Lubricamente abraço a sombra
Afago braços imaginários que a mim poderiam segurar
Entre tudo, um mundo de vácuo e silêncio
Essa carência sem supressão me há de matar...

Tentativa hedonista de satisfação inglória
Meu pecado é crer em minha liberdade
Abandono de consciência e moral tal que minha alma vibra
Efêmera lembrança do que foi felicidade

Deixo no chão meus sonhos dissolutos
Meu sangue impudico colorindo suas formas
O luzir voluptuoso de meu corpo encanta o porto
Giro, paro, emudeço. Olho a volta buscando olhos específicos
Encontro quem me clama e libidinosamente recomeço minha dança.